Forró com Propósito: Como o Interior do Brasil Está Reinventando o São João do Seu Jeito
Tem um cheiro específico que só quem cresceu no interior conhece: quentão com gengibre, milho assando na brasa e aquela fumaça fina de fogueira que gruda na roupa por dias. É o cheiro de junho. Mas enquanto os grandes festivais disputam cachês astronômicos e patrocínios corporativos, uma outra festa está acontecendo — menor, mais barulhenta no bom sentido, e muito mais viva.
Pelos rincões do Nordeste, do interior de Minas, do sul do Piauí e até de comunidades ribeirinhas do Amazonas, municípios com menos de 20 mil habitantes estão transformando o São João numa expressão genuína de quem são. Sem fórmula pronta. Sem artista importado. Sem patrocinador mandando na programação.
A Festa Que Veio de Baixo
Em Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano, a prefeitura chegou a cogitar cancelar a festa por falta de verba. Foi quando um grupo de jovens do bairro do Açude resolveu tomar as rédeas. Organizaram um vaquinha entre os moradores, conseguiram doações de tecido de lojas locais e montaram uma festa no campo de futebol da comunidade que durou três noites e reuniu mais de quatro mil pessoas.
"A gente percebeu que a festa nunca dependeu do governo. Ela sempre foi nossa", conta Débora Lins, uma das organizadoras, que tem 24 anos e nunca tinha feito nada parecido antes.
Esse movimento está longe de ser isolado. Em dezenas de cidades pelo Brasil, coletivos jovens, associações de bairro e grupos culturais estão assumindo a organização das festas juninas com uma mistura de respeito pela tradição e vontade de fazer diferente.
Sustentabilidade Entrou na Quadrilha
Uma das mudanças mais visíveis nessas festas reinventadas é a preocupação com o impacto ambiental. Bandeirolas feitas de papel reciclado ou de sacos de cimento reutilizados, copos retornáveis obrigatórios, barracas sem descartáveis e compostagem do lixo orgânico gerado durante os dias de festa — práticas que há cinco anos soariam estranhas numa festa junina estão virando regra em vários municípios.
Em Tauá, no Ceará, o coletivo Raízes do Sertão implementou um sistema de troca: quem levasse um quilo de material reciclável para a entrada da festa ganhava um copo retornável e um ingresso com desconto. O resultado foi surpreendente — mais de 300 quilos de recicláveis foram arrecadados na primeira edição e o lixo produzido durante o evento caiu pela metade em comparação ao ano anterior.
"Não é só uma questão ambiental. É uma questão de identidade. O sertanejo sempre soube reutilizar, sempre soube fazer muito com pouco. Estamos só resgatando isso", explica Marcos Vieira, um dos idealizadores do projeto.
Música Feita em Casa
Se tem uma coisa que essas festas têm em comum é a aposta nos artistas locais. Nada contra os grandes nomes do forró eletrônico — cada um no seu quadrado — mas há algo insubstituível em ouvir uma sanfona tocada por alguém que morou na mesma rua que você.
Em Bom Jesus da Lapa, na Bahia, a festa junina do bairro São Francisco virou vitrine obrigatória para músicos da região. São três dias de programação e a regra é clara: só sobe ao palco quem é da cidade ou dos municípios vizinhos. O resultado é uma programação que vai do baião mais raiz ao xote com influência do reggae local — sim, existe isso — passando por grupos de coco de roda e até uma banda de metais formada por alunos da escola municipal.
A plateia, que poderia reclamar da ausência de nomes conhecidos, vira fã. Porque é diferente torcer por quem você conhece pelo nome, por quem estudou com seu filho, por quem vende pão na padaria da esquina e de noite vira sanfoneiro.
O Arraial Como Economia Local
Não é só cultura. Tem dinheiro rolando, e ele fica na cidade. Essa é uma das diferenças mais concretas entre as festas geridas pela própria comunidade e aquelas dominadas por produtoras externas.
Quando uma grande empresa de eventos organiza um festival junino numa cidade pequena, boa parte da receita vai embora com ela: estrutura alugada de fora, fornecedores de outra cidade, segurança terceirizada. Quando a comunidade organiza, as barracas são dos moradores, a comida é feita pelas cozinheiras locais, o artesanato exposto é produzido pelas mãos de quem vive ali.
Em Piranhas, em Alagoas, a festa junina comunitária do Quilombo do Pau D'Arco movimentou, em 2023, quase R$ 80 mil em três dias — dinheiro que ficou inteiramente na comunidade, distribuído entre mais de 40 famílias que participaram da organização e da venda de comidas, bebidas e produtos artesanais.
"Antes, a gente ia pra festa de outra cidade. Agora, a cidade vem pra nossa festa", diz Dona Conceição, que faz licor de umbu há 30 anos e nunca tinha vendido tanto quanto nas edições recentes do arraial.
Tradição Não É Museu
Há quem olhe para essas mudanças com desconfiança, especialmente as gerações mais antigas, que veem na modernização uma ameaça ao que sempre foi. É um debate legítimo e necessário. Mas o que se observa na prática é que as comunidades mais criativas não estão abandonando a tradição — estão conversando com ela.
As quadrilhas continuam. O casamento caipira continua. O mastro de São João continua. O que muda é o contexto em volta: uma barraca de kombucha ao lado da barraca de canjica, uma roda de conversa sobre história local entre uma apresentação e outra, um espaço para crianças pintarem bandeirolas com motivos do bioma local.
A festa junina nunca foi um objeto estático. Ela chegou ao Brasil trazida pelos colonizadores portugueses, foi transformada pelo povo nordestino, migrou para o Sudeste com os retirantes, ganhou versões urbanas e periféricas, e agora está sendo reapropriada por uma geração que quer celebrar sem pedir desculpas por ser quem é.
Junho É de Todo Mundo
O que esses pequenos municípios estão mostrando para o resto do Brasil é simples e poderoso ao mesmo tempo: a melhor festa é aquela que você fez. Não a que você assistiu, não a que você comprou ingresso, mas aquela onde você estava na barraca, na quadrilha, na cozinha, no palco.
Enquanto os grandes festivais enchem os olhos com fogos e artistas milionários, o interior do Brasil dança no barro, ri alto, come bem e prova que cultura não se terceiriza. Ela se vive, se passa adiante e se reinventa — de junho em junho, de geração em geração.
E se você ainda não foi a uma festa junina de cidade pequena, talvez esse seja o ano.