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Quando a Festa É Nossa: Comunidades Brasileiras Criam Celebrações Próprias Além do Carnaval

Febusca Entulho
Quando a Festa É Nossa: Comunidades Brasileiras Criam Celebrações Próprias Além do Carnaval

Photo: Unknown authorUnknown author, Public domain, via Wikimedia Commons

O Brasil é um país que não precisa de motivo pra fazer festa. Mas tem uma diferença enorme entre a festa que aparece na TV — com patrocínio de cervejaria, palco de alumínio e ingresso de R$ 200 — e aquela que nasce do próprio bairro, da própria gente, do próprio quintal. É sobre essa segunda que a gente quer falar hoje.

Por todo o país, comunidades estão criando celebrações que não dependem de bloco oficial, de prefeitura liberando verba ou de influencer fazendo post. São festas que nascem da necessidade de se reconhecer, de se reunir, de afirmar que aquele pedaço de cidade também tem história, ritmo e alegria pra oferecer.

Fora do Circuito, Dentro da Cultura

Quando falamos em festa popular brasileira, o imaginário imediato costuma ser carnaval, festa junina, réveillon. Mas existe um universo paralelo de celebrações comunitárias que raramente ganham cobertura — e que são, muitas vezes, muito mais ricas em termos culturais.

No bairro do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, um grupo de moradores criou o Baile da Resistência, que acontece toda última sexta-feira do mês numa quadra emprestada. O evento mistura funk carioca clássico, pagode de raiz e rodas de samba, e se tornou ponto de encontro de três gerações. Não tem flyer profissional, não tem DJ famoso. Tem vizinho tocando cavaquinho e criança aprendendo a sambar com a avó.

"A gente não tá competindo com o carnaval. A gente tá fazendo o que o carnaval deixou de fazer, que é ser da comunidade", diz Seu Zé Augusto, um dos organizadores, enquanto arruma as cadeiras de plástico em volta da pista.

Afro-Brasilidade Como Centro da Festa

Um dos movimentos mais potentes nesse cenário é o resgate e a valorização das festas de matriz africana e afro-brasileira. Em Salvador, os Blocos Afro como Ilê Aiyê e Olodum são conhecidos mundialmente — mas há dezenas de coletivos menores, em bairros como Liberdade e Cajazeiras, que organizam celebrações voltadas para a ancestralidade sem nenhuma pretensão de virar atração turística.

Em Recife, os Maracatus de Baque Solto do interior de Pernambuco inspiraram grupos urbanos que criaram seus próprios cortejos em bairros da periferia recifense. Esses grupos se reúnem mensalmente, independentemente do período de carnaval, para ensaiar, celebrar e transmitir o conhecimento para as crianças do bairro.

"O maracatu não é fantasia de carnaval. É religião, é memória, é política. A gente faz isso o ano inteiro porque faz parte de quem a gente é", explica Dona Conceição, rainha de um desses grupos no bairro de Água Fria.

Festas Temáticas que Viram Identidade de Bairro

Nem toda celebração comunitária vem da tradição. Algumas nascem da criatividade pura, da vontade de criar um evento que represente o bairro de um jeito novo.

Na Zona Leste de São Paulo, a Virada Cultural da Periferia — que não tem nada a ver com o evento oficial da prefeitura — surgiu em 2019 como uma resposta direta à sensação de que o centro da cidade concentrava toda a programação cultural. Moradores de Itaquera, Guaianazes e São Mateus se uniram para criar um festival de 24 horas com shows de rap, batalhas de MC, exposições de grafite e comida típica dos estados de origem das famílias migrantes da região.

"A nossa festa tem sotaque nordestino, tem baile funk, tem cumbia porque tem família boliviana aqui também. Isso é São Paulo de verdade", conta Priscila, uma das organizadoras, que trabalha de dia como professora e de noite como produtora cultural voluntária.

O Tambor Que Não Para

Nas comunidades quilombolas espalhadas pelo Brasil — são mais de 3.000 territórios reconhecidos — as festas comunitárias têm uma dimensão ainda mais profunda: são atos de sobrevivência cultural.

No Quilombo Kalunga, em Goiás, a Festa da Folia do Divino reúne centenas de famílias todo ano numa celebração que mistura catolicismo popular e tradições africanas, com batuque, sussa (dança típica da região) e uma procissão que percorre quilômetros de cerrado. Para os mais jovens que migraram para as cidades, voltar pra essa festa é reconectar com uma identidade que a cidade tenta apagar.

Em comunidades caiçaras do litoral paulista e paranaense, festas de pescadores com características semelhantes acontecem à beira-mar, com rezas, danças e comidas que só existem ali, naquele lugar, naquela forma.

Tecnologia a Serviço da Festa Comunitária

Se antes essas celebrações ficavam restritas ao boca a boca, as redes sociais mudaram o jogo. Grupos de WhatsApp organizam logística, perfis no Instagram divulgam programação, e transmissões ao vivo no YouTube levam a festa pra quem não pode ir pessoalmente.

Essa visibilidade trouxe um efeito colateral positivo: o interesse de pesquisadores, jornalistas e documentaristas. Mas também gerou um debate dentro das comunidades sobre o risco da espetacularização — transformar uma festa íntima e política em produto cultural para consumo externo.

"A gente quer que as pessoas conheçam, mas não quer que venham nos ver como zoológico. A festa é nossa, e o visitante é bem-vindo se vier com respeito", resume Keila, organizadora de um baile de black music comunitário em Contagem, Minas Gerais.

Celebrar É um Ato Político

No fim das contas, o que une todas essas festas — do baile no Rio ao cortejo quilombola em Goiás, da virada cultural na Zona Leste ao maracatu em Recife — é a mesma coisa: a recusa de esperar que alguém de fora venha validar a alegria de um povo.

Celebrar juntos é afirmar que aquela comunidade existe, que tem valor, que tem beleza. É dizer que a periferia não é só lugar de problema — é lugar de solução, de criação, de festa.

E enquanto os grandes eventos brigam por patrocínio e cachê de artista, em algum beco, em alguma quadra, em algum terreiro, a festa mais verdadeira do Brasil já começou. Sem bloco, sem trio elétrico, sem ingresso. Só com gente, ritmo e vontade de estar junto.

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